Certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, ela encontrou-se em sua cama metamorfoseada em uma... mariposa [1]. Pôs-se a examinar as asas diante do espelho e nelas descobriu o desenho de dois grandes olhos de cigana oblíqua e dissimulada [2]. Embora asquerosos à primeira vista, lembrou-se de que essas coisas que parece não terem beleza nenhuma, às vezes, é por falta de um segundo olhar [3].
A despeito da nova forma, sentou-se à mesa e desfrutou de sua refeição matinal, madeleines com uma xícara de chá [4], depois sacou um relógio de bolso de seu colete, checou as horas e saiu apressada [5]. Contudo, faltando o fôlego no meio do caminho, pousou em uma pedra para descansar — pois, sim, no meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho [6]!
Notou então como à sua volta todos continuavam a caminhar em frenesi, com expressões de pura exaustão, e ela sentiu-se muito calma e muito vazia, do jeito que o olho de um tornado deve se sentir, movendo-se pacatamente em meio ao turbilhão que o rodeia [7]. Agitando suas antenas, meditou: será que vivo por inteiro e será que isso basta? Nunca bastou e muito menos agora [8]. Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome [9]. A vida só é possível reinventada [10]. É hora de embriagar-me. De vinho, de poesia ou de virtude [11].
Pela primeira vez em anos, a Mariposa decidiu fazer algo diferente em sua vida. E assim nasceu o Sebo Mariposa, um espaço onde todos podem pousar por um instante, embriagar-se de literatura e ser livres para viver quantas vidas forem possíveis.
Referências:
[1] KAFKA, Franz. A metamorfose. (Tradução de Marcelo Backes)
[2] ASSIS, Machado de. Dom Casmurro.
[3] QUINTANA, Mário. As coisas.
[4] PROUST, Marcel. No caminho de Swann.
[5] CARROLL, Lewis. Alice no país das maravilhas. (Tradução de André Cristi)
[6] ANDRADE, Carlos Drummond. No meio do caminho.
[7] PLATH, Sylvia. A redoma de vidro. (Tradução de Chico Mattoso)
[8] SZYMBORSKA, Wisława. Um grande número. (Tradução de Regina Przybycien)
[9] LISPECTOR, Clarice. Perto do coração selvagem.
[10] MEIRELES, Cecília. Reinvenção.
[11] BAUDELAIRE, Charles. Embriagai-vos. (Tradução de Aurélio Buarque de Holanda)